V de Vingança II

Abril 28, 2006

Brincadeira, eu não vou escrever verborragicamente de novo sobre a HQ.

Mas achei esse artigo sobre o Alan Moore do Waldomiro Vergueiro (o cara mais bacana que usa suspensórios) no Omelete.

No Omelete

V de Vingança

Abril 26, 2006

Ok, Alan Moore falou que o filme era um lixo, o crítico da Carta Capital resolveu deixar de lado o quadrinho e disse que o filme é B de Bom Demais. Realmente, a matéria de Mary Persia para a Folha é a melhorzinha que eu lí.

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Bom para começar, o quadrinho, V de Vingança é daqueles clássicos imperdíveis da HQ, junto com o Batman anarquista/psicótico de Frank Miller em Cavaleiro das Trevas e Watchmen (do Alan Moore também).

V, é um fugitivo de um campo de pesquisas médicas bem aos moldes do regime nazista. Ele cita desde Velvet Underground até William Blake, seus gostos vão de Tchaikovsky a música da Motown. Como Montag em Fahreneit 451 (Ray Bradbulry) tenta salvar pedaços de cultura do regime totalitário.

O cenário é uma sociedade pós guerra nuclear à qual a Inglaterra sobreviveu porém, ficou completamente isolada do mundo uma fez que a Europa, digamos, fez Cabum!.

A população amedrontada acaba empoderando um grupo totalitário que extermina ativistas políticos (uns nem tão ativistas assim, bem aos moldes do macartismo), homossexuais e todos que consideram não-nórdicos. O governo monitora a população no melhor estilo Big Brother (pense em George Orwell e não Endemol, por favor) e é claro todos os poderosos são tão corruptos que poderiam ser considerados mafiosos. Até aí a história não é nada nova, infelizmente.

V é um anarquista, seu objetivo é por todos os meios que ele considera válidos derrubar o regime, criar o caos, para que após toda a confusão a população tenha a brilhante idéia construir um mundo melhor. Bom ok, bem por cima, essa é a HQ.

Vamos ao filme. Sim, como a Folha de São Paulo disse, as idéias de Moore são tão poderosas que nem Holywood consegue extinguir o conteúdo subversivo de V de Vingança. Mas consegue diluir, muito. Ponto contra o filme, que não ousa falar claramente sobre as crenças de V, sobre auto-governo, sobre o poder do povo. V, ou agente Smith, se contenta tímidamente com um “O povo não deve temer o governo, o governo é que deve temer o povo”.

Todo mundo é mais “limpinho”, Evey é mais velha, super culta e esperta (quem em Holywood ia ter coragem de colocar uma Lolita que se prostitui nas telas, a Evey de Moore); o agente Finch, que no quadrinho toma LSD para entrar na mente de V, descobre tudo “na base do google”. Ah, e sexo, niguém faz sexo na Londres dos garotos Matrix. Enfim Holywwod adora dar uma “higienizada” nas criações de Moore (vide o deplorável filme “The League of Extraordinary Gentlemen”, inspirado na HQ homônima, esta, também imperdível).

V de Vingança, a HQ, é a história de um anarquista que resolve dar uma chance à sociedade, para que essa se reconstrua sem líderes, encontre seu próprio caminho. No filme digamos que V é um guerrilheiro ou melhor, “defensor” da democracia (e não é isso que Bush diz ser?). Afinal quem diz que o governo deveria temer o povo acredita que deve haver um governo.

Tudo, tudo pasteurizado. Bem na filosofia: o público médio não entenderia a fala enigmática do personagem original; V precisa chorar, para que o público crie empatia com o personagem, V e Evey precisam ter uma história de amor e é claro nada pode ficar implícito. E ai meu deus, mostrar o complexo de Édipo que Evey tem em relação a V, imagina como a platéia ia ficar chocada. Nem pensar, o produtor não ia aceitar. Ok, eu entendo o Sr. Moore, V de Vingança é nada mais que um suco de uva com muita água inspirado na HQ, que é digamos um belo Bordeaux. Enfim, talvez a definição um lixo seja um tiquinho apropriada.

No entanto, o filme conseguiu falar de outras questões e fazer algumas atualizações interessantes quanto ao que seria a sociedade autoritária de hoje. Ponto pro filme. As pessoas não precisam de câmeras em suas casas mais para serem censuradas. O século XXI nos presenteou com um tipo de censura bem mais interessante, a auto-censura, um misto de medo, individualismo e comodismo.

Óbviamente, Destino, o computador todo poderosos do poder londrino ia parecer uma idéia bem infeliz atualmente, assim como a explosão nuclear completa. No lugar colocamos armas biológicas. Não é incrívelmente criativo, mas é no mínimo apropriado.

Enfim, é legal, mas é entretenimento, dava para ser muito mais, o tipo de entretenimento digno do Sr. Moore, que te faz sair com questões e mais questões na cabeça. A única coisa que que saí da sala pensando é: seria V de Vingança o filme, um exemplo da nossa nova sociedade autoritária? Da auto-censura, da censura de mercado, que procura atingir o cidadão-médio (cidadão que só existe na cabeça desses homens que teimam em subestimar a humanidade)? Você sai de lá tranqüilo: sempre vai ter um doidão pronto para salvar a democracia, essa democracia que temos hoje.

O que V diria de nossa gaiola dourada?

Antes que você tenha que comprar a edição anterior, em p&b:
V de Vigança (Alan Moore – David Lloyd) – Vertigo/Panini Comics – nas bancas – R$39,90

Para entrar na sua prateleira:
Fahreneit 451 – Ray Bradbulry
Esse tem filme também:
Fahreneit 451 – dir. François Truffaut

71 Contos de Primo Levi

Abril 11, 2006

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71 Contos de Primo Levi (Companhia das Letras) é a reunião de três outros livros de contos de Primo Levi, conhecido pelo testemunho de seu emprisionamento em Auschwitz. Não vou falar de Levi, nem do que o motivou a escrever os tais 71 contos. Primeiro porque seria muito pretenção mas, também porque a matéria da >Bravo! já resolve a questão muito bem.

Vou falar de porque esse livro é absolutamente imperdível. Com frescor, leveza e brilhantismo Primo Levi questiona a tecnologia, a ficção, a ciência, a humanidade, a sociedade, assim em uma tacada só (ou melhor em 71 tacadas). O livro é cheio de pérolas, contos que fazem pensar, surpreendem e fogem completamente ao lugar comum. Levi mistura aqui a ficção científica, o fantástico e a fábula.

Não resisti a ler e reler o conto Rumo ao Ocidente, no qual o cientista Walter vai atrás do fenômeno do suicídio dos lemingues (pequenos roedores que habitam os países nórdicos e ao migrarem pelos caminhos estreitos fiordes, acabam por empurrar uns aos outros precipício abaixo). Walter estuda em seguida uma comunidade na qual o suicidio é socialmente aceito quando o indivíduo conclui que sua vida lhe dá mais prazer do que dor.

Com essas duas pesquisas acaba descobrindo a origem química da tristeza humana e assim, desenvolve o “antídoto da tristeza”, que é então vastamente difundido. Bom, só lendo para saber o resto, nada que eu possa dizer se compara à narrativa de Primo Levi.

Termino com a frase final do texto só para deixar aquele gostinho:
“Não queremos ofender-vos, mas reenviamos vosso medicamento de modo que ele seja proveitoso aos que entre vós dele necessitarem: nós preferimos a liberdade à droga, e a morte à ilusão.”