Poemas e Afins
Abril 26, 2006
Uns textinhos aí. Poemas, croniquinhas e afins.
Receita para uma poeta de araque
Cafés com leite
- com flores desenhadas de nata -
Três garrafas de cerveja
Dois espetinhos de queijo coalho
Algumas jornalistas
um publicitário
uma ruiva
uma capixaba
e dois pais neuróticos
Prateleiras cheias de livros
com anotações ilisíveis nas laterais
Cds nas caixas erradas
e um gato cinza
Um amontoado de amores amenos
Momentos pequenos
O pai e a filha que assistem o pôr-do-sol
Na beirada da marginal
Jogue tudo em um caldeirão
em água morna
adicione um pinguinho de xampu infantil
É só isso, nada mais.
Declaração
Na festa cheia
ela se aproximou dele
e sussurou ao ouvido
“Senti sua falta”
Ele só teve tempo de dizer
“A música está muito alta”
Antes que ela fosse arrastada
para o meio da festa
por um brutamontes qualquer
p.s. Em tempos de Holywood a única declaração de amor a se fazer deveria ser: “Senti sua falta”, pensou ela de volta no táxi.
Cinco por dois
Sem que ninguém percebesse
- nem mesmo o vendedor de zona azul
Os dias passaram a ser contatos
de cinco em cinco
Motim
Meus pés, cronicamente gelados
Indagaram, algumas manhãs atrás
Se, caso acordassem, dia sim dia não
Com um bocejo seu no meu ouvido
(ou mesmo aquele irritante ronco)
Seriam mais felizes
Minha cabeça prontamente encerrou o motim
E lembrou meus travessos pés
Que deveriam parar de brincar
Com os sonhos há tanto guardados no porão
A solidão, no seu estado mais estúpido e puro, em nada me dói.
Clichê
Eu tenho essa teoria
que no fundo
todo verborrágico
é tímido
Em todo solitário
lá no fundo
(escondido entre o baço e o pâncreas)
há um incontestável romântico
Todo insensível tem
no fundo do baú
um travesseiro semi-mofado
por lágrimas escondidas
Já, para aqueles
que parecem ter tudo
à flor da pele
despossuo teorias
Porém, ainda invado
uma casa dessas
para saber o quê
esse tipo de gente
faz com baús
Terça-feira
Naquela terça-feira, 4 de dezembro de 2001
No exato momento em que os relógios
no topo dos edifícios de banco
marcavam 17:47
e 28 graus celcius
Ana, assistente do Depto. admnistrativo
levantou-se de sua mesa
desligou o computador
desceu pelo elevador
até o térreo
do número 3626 da Avenida Paulista
Chegando à calçada
tirou lentamente cada peça que portava
começando pelo terninho
e terminando pelas meias
fio 40, cor de café
(Ana tinha pés muito friorentos)
Alongou a perna direita
e o braço esquerdo
sorriu para o segurança
como quem se despede
Este estava mais preocupado
com o mendigo
que dormia no chão
respirando lentamente
Nessa terça-feira Ana saiu correndo
completamente nua
Avenida Paulista afora
(direção centro da cidade)
no meio do horário do rush
para nunca mais ser vista
Pode procurar nos livros de história
deveria estar lá
ou no próximo do Hobsbawm
Maybe I’m Amazed
São Paulo barulhenta, congestionada, com o esgoto explodindo no meio da rua, 23h30, na Santo Amaro. Atrás de mim um casal se olha. Ela, cabelos brancos e rugas fundas, fundas, ele, careca de óculos, cabeça sem cabelos e sobrancelha branca.
Vêem que o trânsito não fará progressos, se olham, riem, e se beijam. Se beijam bem fundo, aquele beijo bem gostoso, que na novela ninguém que passou dos cinqüenta se dá.
No metrô, 20h30, linha verde, direção Vila Madalena, a cidade está cansada, mais uma quarta-feira.
Vó e neta, sentadas de mãos dadas, vão adormecendo lentamente entre uma parada e outra até suas cabeças se encostarem.
Próxima parada, Sumaré, a voz que indica acordas as duas. Elas levantam as cabeças assustadas, olham para o nome da parada na parede (ufa!), se entreolham e sorriem.
18h30, Marginal Tietê, carro cheio, Uno Mil, voltando da praia. Quatro crianças no banco de trás, pequenas. O menor, alheio à confusão que os outros fazem, olha para trás, a cabeça perdida no mundo. Caído dos sonhos me olha, pelo vidro, sorri e acena. Para mim, eu espero.
Passar pela praça Roosevelt à noite, lá atrás as luzes amareladas do centro. Só isso.
Maybe I’m amazed.
Reticências
Passei de costas, o mais rápido que podia andar, sem ainda assim correr, temi que se olhasse nos teus olhos, me tornaria pedra.
E se eu não lembrasse de nada, teria algum sentido, qualquer, qualquer, olhar nesses olhos?
Nos jornais escrevem sobre histórias de amor que terminam com um ponto final, não com deselegantes reticências.
Tantas reticências que me deixam por aí, fins sem fins, ou fins que eu não sei aceitar.
Foi seu desinteresse que me grudou essa manhã nos meus lençóis.
Quarta-feira de cinzas
Estilhaços, por todo lugar que eu passo, só estilhaços
Pedaços de mim caindo na rua
Uma calça esburacada no inverno
O buraco tapado com esparadrapo
(em mim ou na calça?)
Uma noite de 4 horas
Mãos geladas, presas nas pontas dos braços
Do conteúdo da garagem jogado no jardim
Do conteúdo da garagem jogado no jardim pouco pode-se dizer
Salvo sobre as cartas que queimam
Na lateral direita
Formando uma gentil fogueira
Dessas não deve dizer-se nada
Antes nada do que pouco
Antes nunca do que tarde
Antes eu do que você
É que eu sei fazer 2 e 2 ser 14
E não tente me perguntar porquê
Peço desculpas
Achei que você sabia
Que eu sei melhor de poesia
E de estrelas
Mas, dessa vez
você fica com a bagunça
e eu fico com o futuro
Não olhem para o meu jardim
Está tudo aqui
No meio da rua
Não olhem
Floricultura
Eu sou especial
Terrivelmente especial
Deveriam até construir um parque com o meu nome
Só com margaridas
As flores das amigas
E me tornarei vendedora de rosas amarelas
As Meninas do Calendário
Tem a bola, a mesa e o taco
E as meninas do calendário
Que pouco querem saber da mesa
Da bola
E outros afins
Tem as meninas do calendário e beijos
Para as meninas do calendário há beijos
e joelhos bambos
A mesa a bola e o taco
O copo cheio
O copo quente de cerveja
Eu você
Ou só eu ou só você
Em tempos inversos
Todas as coisas que dão errado
O telefone com alguém do outro lado
A ducha que você me mandou tomar
E o tempo, como de hábito, fugindo por entre nossos dedos
Sem título
Por todas as conchas e dias na praia
Pelos beijos e os bolos de nozes
Pelo caminho para a aula de balé
Pelo passado
Que tacanho como é
Teima em nunca voltar
Por esse texto que dói escrever
E que há de ficar sem título
(Não)Reciprocamente
Eu te dei um laço
vermelho, de cetim
Que você jogou pela janela
o meu laço, em pleno carnaval
pela passarela ia-se uma linda passista
Então eu te dei um segredo
vermelho, de desejo
era carnaval de novo
a última dançarina deixava a avenida
No ouvido dela, você contou meu segredo
[de boca cheia, os dois riram de mim]
No outro carnaval
Veio você me oferecer tua amizade
eu agradeci a gentileza,
mas não aceitei
e você continuou na avenida
Julho 11, 2006 at 2:04 am
Nossa, amei seus poemas, sobretudo aquele que diz:
Antes nada do que pouco
Antes nunca do que tarde
Antes eu do que você
É exatamente o que senti quando terminei um relacionamento…
Duro isso!!!
Continue escrevendo. Tem talento! E eu sou exigente!
beijo
Solange